We Are Made of Star-Stuff

Madrid,

The cosmos is within us. We are made of star-stuff. We are a way for the universe to know itself.

— Carl Sagan

Já parou pra pensar que ninguém existe em isolamento e, ao mesmo tempo, tá todo mundo intrinsecamente sozinho?

A consciência é algo tão singular, que mesmo que eu nascesse grudado com alguém, eu continuaria sozinho; é impossível que eu experimente a sua consciência; é impossível que você experimente a minha. Estamos condenados a experimentar tudo pelas nossas próprias lentes, e fadados a buscar eternamente uma forma de dar pelo menos uma olhadela através das lentes de outras pessoas.

Ao mesmo tempo que somos tão singulares, somos parte de um todo que é, até onde sabemos, infinito. Os átomos que compõem eu e você foram forjados há milhões de anos em núcleos de estrelas. A poeira que nos forma veio, literalmente, do espaço.

Parando pra pensar nisso, chego à conclusão de que essa é uma ideia meio absurda, apesar de real. Porque nós somos acostumados a enxergar o universo como sendo um lugar onde a gente está; a natureza como algo com o que a gente convive; a vida como algo pelo qual a gente passa. Porém, a verdade é que nós somos parte disso tudo. Literalmente um aglomerado de minúsculas partes do restante do universo que se organiza por alguns anos, desenvolve consciência, se levanta, observa a si mesmo de forma individual, se questiona o motivo de tudo, e depois volta a ser pó.

Enxergo a existência humana como alguém enxerga uma onda no oceano: no momento em que ela se manifesta, é nítido que é uma onda; porém, quando ela se desfaz, apesar de continuar 100% ali, volta a ser apenas parte do oceano. Veja bem: a onda jamais deixou de ser oceano; ela era meramente uma manifestação dele. Da mesma forma, a consciência humana não deixa de ser parte do universo só porque essa parte se organizou de maneira a produzir pensamentos. Pelo contrário: eu diria que a consciência humana é uma manifestação do universo. Somos uma consequência extremamente organizada do que conhecemos como caos.

Pra além da natureza cosmológica desse pensamento, o que me intriga nele é a improbabilidade, quase impossibilidade estatística desse tipo de manifestação acontecer. Estima-se que existam 1080 (100 quinvigintilhões) de átomos no universo. Desses, pode-se estimar que ~5,8 * 1037 (58 undecilhões) formem a população humana de ~8.3 bilhões de pessoas. Isso significa que, de todos os átomos do universo, apenas ~0,000000000000000000000000000000000000000058% (são 40 zeros antes de chegar naquele 5) deles formam a humanidade de uma vez e, por sua vez, ~1,4 * 1028 desses átomos formam eu e você: dois conjuntos extremamente coordenados, agrupados de um jeito absurdamente específico, que se comportam de forma sincronizada o suficiente pra estarem conscientes, olharem pra essa infinidade da qual fazem parte, e pensarem sobre si mesmos e sobre o infinito do qual fazem parte.

Pensar nisso me faz enxergar a existência humana como algo extremamente especial, pelo simples fato do quão rara ela é, e em como conhecer outras pessoas, por mais que não nos permita experimentar outras consciências, é essencialmente uma maneira de enxergar através da barreira do “Eu”.

Existimos na dualidade de um paradoxo fundamental: somos singulares, únicos, sozinhos, isolados; e ao mesmo tempo somos parte de um todo, forjados dos mesmos átomos, vivendo no mesmo planeta. Somos extremamente individuais nas decisões que tomamos, no conteúdo que consumimos, naquilo que nos acontece e em como escolhemos lidar com isso, ao mesmo tempo que somos um aglomerado de todas as pessoas que já conhecemos, livros que lemos, músicas que ouvimos, filmes que assistimos, lugares que visitamos. Vivemos num limiar entre existir no meio e ser parte do meio, e olhar pra esse limiar tem feito com que eu me sinta cada vez mais vivo.

Se me permito “esticar” esse pensamento um pouquinho mais, ele também toca no fato de que a experiência humana é, ao mesmo tempo, finita e eterna: eu vou morrer, e você também. Desse ponto de vista, nossos corpos e consciências continuarão existindo, apesar de assumirem outra forma, continuarão sendo parte do universo, mas agora na forma de um pedacinho minúsculo de uma árvore, de um peixe, de um grão de poeira, e provavelmente em algum momento de outro aglomerado de átomos que vai desenvolver consciência. Afinal, se somos o universo experimentando e conhecendo a si mesmo, esse conhecimento não há de morrer conosco, e sim com o universo. Somos eternamente finitos.

Por fim, acredito que Albert Camus está certo quando define a condição humana como absurda, e ainda mais certo quando nos convida a olhar pra esse absurdo de frente e, encarando a vida nos olhos, escolher viver plenamente conscientes do quão contraditória é nossa própria existência, nos permitindo ser importantes à medida que nos damos importância.


Se você é um dos meus amigos lendo isso, quero que saiba que serei “eternamente” grato pela chance que meu montinho de átomos teve de estar organizado no mesmo período em que o seu montinho de átomos estava organizado, e pela oportunidade de experimentar a consciência e o absurdo da existência humana junto com outra manifestação tão especial do universo.